Certamente você já viu a
propaganda de uma empresa de carnes cujo personagem animado é um frango. Este
frango faz propaganda em que outros frangos sejam abatidos e assim
comercializados entre os consumidores.
Essa propaganda me lembra
perfeitamente o famoso “pobre de direita”
(ou ‘capitalista’). Por que? Ora, um frango que faz propaganda para que
outros frangos sejam abatidos, é a mesma lógica de quem defende um lado que
governa apenas para interesses da classe dominante – ou seja, a direita.
Ainda que governos “de esquerda” pouco governem para seu
povo analisando o quadro sociopolítico das dificuldades encontradas frente ao poder do capital. A direita acusa a esquerda de piorar a
economia, dizendo que a economia é a coisa mais importante para o povo. A
direita dá um golpe e governa em prol da economia e em detrimento do povo.
Mas, sobretudo, devemos nos
ater que ser ‘de direita’ é algo “natural” para quem
nasceu no seio de uma sociedade capitalista. Nesta onde são exacerbados
o individualismo e a “competitividade”, não seria surpresa, um pobre alimentar
um ideário que o corrói em sua carne.
Para essa “naturalidade”, o
filósofo e um dos pilares da sociologia clássica, Karl Marx, em parceria com também sociólogo Friedrich Engels, escreveram: “As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias
dominantes; isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é,
ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. (...) As ideias dominantes nada
mais são do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as
relações materiais dominantes concebidas como ideias; portanto, a expressão das
relações que tornam uma classe a classe dominante; portanto, as ideias de sua
dominação.” (Ideologia Alemã).
Como uma vez escreveu o amigo
Rennan Ramazini: “o brasileiro, no geral, odeia política e vive na frente da televisão.
Não é difícil ouvirmos por aí aquele discurso cancerígeno de que ‘política e
religião não se discute’; o resultado disso é que somos um país de analfabetos
políticos altamente religiosos – um prato cheio para direita conservadora e liberais exploradores.”
Como estamos no seio dessa
sociedade capitalista, onde essa ideologia
que molda a personalidade inconscientemente, a falácia do “trabalho dignifica o homem” é parte do dogma meritocrático dos
mais aventurados financeiramente, um dogma dos mais idealistas e mentirosos por
sinal.
Competição no capitalismo não
passa de discurso que explora a desigualdade. Mas de forma que impossibilita a
busca por sistemas sociais mais inclusivos e abrangentes, por uma alternativa à
economia de mercado. É um ideário conservador e retrógrado acima de tudo.
O interessante nesses pobres “capitalistas” que além de acreditarem no
mito da meritocracia, criticam medidas afirmativas adotadas pelo Estado (cotas) para que eles próprios tenham direito, como; Universidades
democratizadas, bolsas de estudos, programas de financiamento estudantil a fim
de ampliar vagas e qualificação técnica, reduzindo as desigualdades sociais e econômicas que se beneficiariam; ao mesmo
tempo que não se indignam com
eleições de políticos corruptos, cargos comissionados, funcionários públicos
fantasmas, bolsa-empresário (vide BNDES), sonegações de grandes empresas, trabalho escravo, baixos salários, etc.
Além disso, cabe um olhar
materialista sobre a religião, salientando as origens e formas de opressão e
exploração das classes trabalhadoras. Criada pelo homem, em específico pelo
homem que domina o homem, a religião constrói um mundo que não existe. A
religião é uma superestrutura, sistema ideológico, que fundamenta a dominação e
exploração do povo.
Agindo como um anestésico ou
um ansiolítico, uma droga que amortece os sentidos, “a religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração,
assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo”
(MARX, p. 145). De forma que “a religião é apenas o sol ilusório que gira
em volta do homem enquanto ele não gira em torno de si mesmo. […] A crítica do
céu transforma-se, assim, na crítica da terra, a crítica da religião, na
crítica do direito, a crítica da teologia, na crítica da política” (MARX,
p. 146).
O pobre ‘capitalista’ vive de forma que a ideologia dominante destrua
alternativas de sobrevivência das classes trabalhadoras excluídas do mercado de
trabalho na forma perene ou esporádica. “Bandidos”,
“prostitutas”, “traficantes”, “mendigos”, “vagabundos” sempre foram os
alvos preferidos do poder punitivo no capitalismo – e nesses adjetivos, se
encontra o ‘pobre de direita’ ou o ‘pobre capitalista’. *
O poder político, ideológico e
econômico é das classes burguesas. As classes que controlam o Estado, a
produção de riquezas e cria a ideologia dominante. Prova disso é a questão
proibicionista das drogas legitimando o extermínio policial contra a população pobre e negra, contra os
marginalizados por esse conservadorismo
social que acabam por acometê-los. Defendem a política de tortura e matança
de detentos como se fosse uma solução para a criminalidade urbana, além da
forte repressão estatal contra eles próprios.
Mesmo que muitas ideias sejam
defendidas ferrenhamente por grupos mais vulneráveis e susceptíveis a caírem
ainda mais à margem da sociedade. Então o pobre, em seu anseio de alcançar
patamares maiores que consegue chegar, acreditar na utopia que ‘com o tempo as coisas melhoram’,
enquanto se sufoca com contas a pagar, destruindo a ilusão de ascensão
econômica e caindo no lamaçal que o joga no esgoto da amargura. E a ideia da doutrina
“liberal” chegando com um discurso sedutor e atraente a ele, faz com que este
pobre coitado nutra suas ilusões como “concretizáveis”, sendo fiel a uma falsa
e demagoga promessa de “prosperidade”.
Ser pobre e acreditar na
teologia capitalista não é demérito (considerando
o fato de serem analfabetos políticos e não ideólogos imbecis). Ser pobre não
é uma escolha para quem nasce numa sociedade que lhe fez assim e, assim, sonhar sem ser um milionário qualquer sabe-se lá quando e como. Até porque, somos frutos da sociedade em
que vivemos. Por isso é “normal” viver loucamente e atordoado atrás do “pão de
cada dia”. E estes que precisam sobreviver, compactuam com essa realidade de modo qual é a sua realidade.
Quem vive na dificuldade e quer melhorar
por si sua condição financeira é, por muitas vezes, desespero e não opção de
vida à priori. E é aí que os progressistas entram para modificar essa
realidade, estabelecendo uma sociedade, um nova visão humanista e solidária nela –
principalmente aos mais pobres –, para que não naveguem nesse idealismo que o faz
um mero instrumento de trabalho ou uma mercadoria. Precisamos, ao lado desses mais vulneráveis, traçar alternativas a esse modo infame de vida que não lhe trás satisfação, mas ilusões de uma falsa realidade.
Numa sociedade capitalista,
seja você pobre ou não, uma vida selvagem, seu pensamento também será. Por isso
que há tantos “capitalistas” pobres.
* Vale lembrar: “capitalista”
não é, na linguagem de Marx, quem “apoia o capitalismo” (muitas vezes sem saber
direito o que é ‘capitalismo’), mas sim quem comanda capital, valor em
movimento contínuo de autoexpansão.
Amigo Wesley, esses pobres de direita defensores do capitalismo, do livre mercado e da meritocracia estão se espalhando como uma praga cada vez maior amparados por grupos como MBL. Ontem mesmo vi um garoto de 12 anos se vangloriando de ter lido "Muito" sobre capitalismo e um "pouco" sobre socialismo, e depois dizer que se informa por meio livro que leu do Mises e por aulas online (imagine que seja Nando Moura ou Olavo de Carvalho os professores). Entre muitas outras coisas, ele tentou afirmar que a Inglaterra acabou com a pobreza por meio da revolução industrial e livre mercado (ignorou a exploração extrema das colônias), que o livre mercado havia gerado riqueza no mundo e que havia muito pouca pobreza (esse devaneio não sei de onde ele tirou), que só eram países capitalistas os EUA, Inglaterra e França (países imperialistas e colonizadores que cresceram através da exploração alheia) e que os países que são ex-colônias (alguns foram citados por um historiador que apareceu no papo) não eram capitalistas de verdade porque não eram ricos (ele ignora toda a sorte de misérias que esse povo sofreu nos séculos passados), ele acreditava que o Brasil não era capitalista (talvez ache que somos comunistas por termos sido governados pelo PT), que os professores estavam doutrinando os alunos na escola porque falavam que a riqueza do mundo estava na mão de poucos enquanto a maioria vivia em péssimas condições e muitos em pobreza, e também por ter falado que a Dilma foi deposta por golpistas (ou seja, o professor falar verdades para eles virou sinÔnimo de "doutrinação marxista", talvez ele preferisse que o professor contasse as mentiras sobre as belezas do capitalismo e do imperialismo Norte Americano e como ele poderia ser rico um dia se se esforçasse bastante).
ResponderExcluirEm meio a tudo isso, ele ainda tentou "tirar onda" de que podia usar o facebook porque era um "capitalista", enquanto nós que combatíamos a sociedade capitalista não deveríamos usar e deveríamos passar fome, ou seja, o sistema fez o cara acreditar que ele realmente é importante no capitalismo e que não é apenas uma peça qualquer substituível. Enquanto isso, os verdadeiros capitalistas zoam por aí com o dinheiro da galera enquanto os "soldados da direita" os defendam na internet.
Anda tudo muito lamentável. Abraço camarada.
Eis um perfeito exemplo da alienação ideológica, amigo. Tempos difíceis.
ResponderExcluirAbraços!